A diabetes gestacional é uma alteração da glicose identificada durante a gravidez.
De forma simples, acontece quando a glicose no sangue fica acima dos valores considerados adequados durante a gestação, sem necessariamente atingir os critérios usados para diagnosticar diabetes fora da gravidez.
Ela é diferente do diabetes tipo 1 e do tipo 2, embora todos estejam relacionados ao controle da glicose e à ação da insulina.
Um ponto importante é que a diabetes gestacional nem sempre provoca sintomas perceptíveis. Por isso, sua identificação costuma acontecer por meio dos exames realizados durante o pré-natal.
É justamente por isso que o acompanhamento da gestação é tão importante.
Por que a diabetes pode aparecer durante a gravidez?
Durante a gravidez, o organismo passa por diversas mudanças hormonais e metabólicas.
Essas alterações fazem parte do processo normal da gestação, mas também podem interferir na forma como o organismo utiliza a insulina.
Quando o corpo não consegue compensar adequadamente essas mudanças, a glicose pode permanecer elevada no sangue.
É nesse contexto que pode surgir a diabetes gestacional.
Isso também ajuda a explicar por que uma mulher que nunca teve diabetes antes pode apresentar alteração da glicose durante a gravidez.
Não significa necessariamente que ela já tivesse diabetes e não soubesse.
Em muitos casos, a alteração está relacionada às próprias mudanças que acontecem durante a gestação.
Diabetes gestacional é a mesma coisa que diabetes tipo 1 ou tipo 2?
Não.
Os três quadros são diferentes.
No diabetes tipo 1, existe uma deficiência importante de produção de insulina, geralmente relacionada a um processo autoimune.
No diabetes tipo 2, o organismo apresenta dificuldade para utilizar a insulina adequadamente e pode, com o tempo, não produzir quantidade suficiente.
Já a diabetes gestacional é a hiperglicemia identificada durante a gravidez, dentro dos critérios específicos utilizados para essa condição.
Se quiser entender melhor a diferença entre os tipos 1 e 2, você pode consultar nosso artigo:
Diabetes tipo 1 e tipo 2: qual a diferença?
Aqui, vamos concentrar nossa atenção na diabetes que aparece durante a gestação.
Toda mulher grávida pode ter diabetes gestacional?
A diabetes gestacional pode acontecer mesmo em mulheres que nunca tiveram diabetes anteriormente.
Por isso, o Ministério da Saúde orienta que a investigação de diabetes gestacional seja realizada durante o acompanhamento da gestação, inclusive em gestantes sem diagnóstico prévio de diabetes.
Ter ou não determinados fatores de risco pode aumentar a probabilidade de algumas alterações, mas a ausência desses fatores não significa que a mulher esteja automaticamente livre da possibilidade de diabetes gestacional.
Essa é uma das razões pelas quais o acompanhamento pré-natal é tão importante.
Quais são os fatores de risco?
Existem características que podem estar associadas a um maior risco de desenvolver alterações da glicose durante a gravidez.
Entre elas estão:
- histórico de diabetes gestacional;
- histórico familiar de diabetes;
- sobrepeso ou obesidade;
- síndrome dos ovários policísticos;
- histórico de bebê com peso elevado ao nascer;
- alterações anteriores da glicose;
- idade materna mais elevada;
- entre outros fatores.
Mas é importante não transformar essa lista em um teste de autodiagnóstico.
Uma mulher pode não apresentar vários desses fatores e ainda assim desenvolver diabetes gestacional.
E outra pode apresentar fatores de risco e não desenvolver a condição.
Quem determina a necessidade de investigação e acompanha os resultados é a equipe responsável pelo pré-natal.
A diabetes gestacional apresenta sintomas?
Esse é um dos pontos mais importantes do artigo:
muitas mulheres não apresentam sintomas claros.
A OMS informa que a diabetes gestacional costuma ser diagnosticada por meio do rastreamento pré-natal, e não pela presença de sintomas relatados pela gestante.
Isso significa que uma mulher pode estar se sentindo perfeitamente bem e ainda assim apresentar alteração da glicose.
Por isso, não devemos usar a ausência de sintomas como argumento para deixar de realizar os exames solicitados durante a gravidez.
O pré-natal existe justamente para acompanhar alterações que podem não ser percebidas no dia a dia.
E se a gestante estiver sentindo muita sede ou urinando muito?
Sede e aumento da frequência urinária podem aparecer em situações relacionadas à glicose elevada, mas também podem ocorrer por diferentes motivos durante a gravidez.
Portanto, esses sintomas não permitem confirmar diabetes gestacional.
Se houver alguma mudança que preocupe a gestante, o melhor caminho é informar a equipe que acompanha o pré-natal.
Como a diabetes gestacional é identificada?
A investigação acontece por meio de exames de sangue realizados durante o pré-natal.
No Brasil, as linhas de cuidado do Ministério da Saúde orientam a investigação de diabetes gestacional em todas as gestantes sem diagnóstico prévio de diabetes. O teste oral de tolerância à glicose com 75 g pode ser utilizado para o diagnóstico, conforme o momento da gestação e os resultados anteriores.
A OMS também estabelece critérios específicos para classificar a hiperglicemia identificada durante a gravidez.
O importante para a leitora é entender que não é necessário esperar sintomas para investigar.
O acompanhamento e os exames fazem parte do cuidado pré-natal.
Uma diferença importante
Existe uma distinção entre:
diabetes diagnosticado antes da gravidez
e
diabetes gestacional diagnosticado durante a gravidez.
Uma mulher pode engravidar já tendo diabetes tipo 1 ou tipo 2. Nesse caso, estamos falando de diabetes preexistente à gestação.
Outra mulher pode apresentar hiperglicemia pela primeira vez durante a gravidez dentro dos critérios de diabetes gestacional.
A classificação é importante porque o acompanhamento e as decisões clínicas podem ser diferentes. A OMS diferencia essas situações em suas recomendações para o cuidado de mulheres com diabetes durante a gravidez.
O pré-natal é realmente tão importante?
Sim.
E aqui está uma das mensagens principais deste artigo.
O Ministério da Saúde orienta que a gestante procure a Atenção Primária assim que descobrir ou suspeitar da gravidez, preferencialmente até a 12ª semana, para iniciar o pré-natal.
O acompanhamento permite observar a evolução da gestação e investigar condições que podem afetar a mãe ou o bebê.
No caso da diabetes gestacional, isso é particularmente importante porque a condição pode aumentar o risco de complicações durante a gravidez e o parto.
Por isso, o pré-natal não deve ser encarado apenas como uma sequência de consultas.
É uma forma de acompanhar a saúde da mãe e do bebê ao longo da gestação.
O que pode acontecer quando a diabetes gestacional não é acompanhada?
A diabetes gestacional merece atenção porque a glicose elevada durante a gravidez pode aumentar o risco de complicações para a mãe e para o bebê.
Entre os problemas associados à hiperglicemia durante a gestação estão pré-eclâmpsia, alterações relacionadas ao crescimento do bebê, complicações no parto e alterações da glicemia do recém-nascido.
Isso não significa que uma mulher diagnosticada com diabetes gestacional necessariamente terá alguma dessas complicações.
O objetivo do acompanhamento justamente é identificar a alteração, acompanhar a gestação e reduzir os riscos.
Por isso, receber o diagnóstico não deve ser encarado como motivo para pânico.
É um sinal de que a gestação precisa de atenção adequada.
O bebê também pode ser afetado?
Pode.
A glicose elevada durante a gravidez pode influenciar o crescimento e o metabolismo do bebê.
Entre as possíveis consequências estão o crescimento excessivo do bebê, alterações da glicemia após o nascimento e algumas complicações relacionadas ao parto.
É importante, porém, não transformar essas informações em motivo de medo.
A presença de diabetes gestacional não significa que o bebê necessariamente terá algum problema.
O acompanhamento pré-natal permite que a equipe avalie a evolução da gravidez e tome as medidas necessárias conforme cada situação.
Como funciona o tratamento da diabetes gestacional?
O tratamento é individualizado.
Dependendo da situação, pode envolver:
- acompanhamento da glicemia;
- orientação alimentar;
- atividade física quando apropriada;
- acompanhamento do ganho de peso;
- medicamentos quando necessários;
- acompanhamento do crescimento e desenvolvimento do bebê.
A OMS recomenda que o cuidado seja adaptado às necessidades de cada mulher, incluindo orientação sobre alimentação, atividade física, metas de glicemia e tratamento medicamentoso quando indicado.
Portanto, não existe uma única receita de tratamento que possa ser aplicada a todas as gestantes.
Diabetes gestacional significa que a mulher precisa cortar todo o açúcar?
Não é tão simples assim.
Quando alguém recebe esse diagnóstico, pode surgir a ideia de que basta eliminar doces e açúcar para resolver o problema.
Mas o controle da glicemia durante a gestação envolve a alimentação como um todo, além de outros fatores.
A quantidade e a qualidade dos carboidratos, a composição das refeições, os horários, a rotina e as necessidades nutricionais da gestante podem ser considerados no planejamento alimentar.
Por isso, uma orientação individualizada é muito mais segura do que seguir uma dieta encontrada aleatoriamente na internet.
Qual profissional pode ajudar com a alimentação?
O nutricionista pode participar do acompanhamento, ajudando a adaptar a alimentação às necessidades da gestante.
Durante a gravidez, isso é especialmente importante porque não estamos falando apenas de controlar a glicose.
Também é necessário considerar as necessidades nutricionais da mãe e do bebê.
Por isso, não é recomendável fazer dietas restritivas por conta própria após receber o diagnóstico.
Uma mudança alimentar aparentemente simples pode não ser adequada para todas as gestantes.
E atividade física, pode?
A atividade física pode fazer parte dos cuidados durante a gravidez quando não existe contraindicação.
A OMS recomenda atividade física durante a gestação e no período pós-parto para mulheres sem contraindicações, associando-a a benefícios para a saúde materna e fetal.
Mas existe uma diferença importante entre atividade física recomendada de maneira geral e uma prescrição individual de exercício.
Uma gestante com diabetes gestacional deve conversar com a equipe responsável pelo pré-natal antes de iniciar ou modificar significativamente sua rotina de exercícios.
O tipo, a intensidade e a frequência precisam considerar as características daquela gestação.
Precisa medir a glicemia em casa?
Em algumas situações, sim.
O acompanhamento da glicemia pode fazer parte do tratamento, especialmente quando a equipe de saúde orienta o monitoramento em casa.
As novas recomendações da OMS destacam a importância do acompanhamento regular da glicemia em mulheres com diabetes durante a gravidez, tanto nas consultas quanto, quando indicado, em casa.
Mas a frequência das medições e os valores que devem ser considerados adequados não devem ser definidos por conta própria.
A equipe que acompanha a gestante deve orientar como e quando realizar as medições.
Diabetes gestacional sempre precisa de medicamento?
Não necessariamente.
Algumas mulheres conseguem controlar a glicemia com mudanças na alimentação, atividade física e acompanhamento adequado.
Em outras situações, pode ser necessário utilizar medicamentos.
A decisão depende dos resultados, da evolução da gestação e da avaliação da equipe de saúde.
A OMS recomenda tratamento personalizado quando a farmacoterapia é necessária.
Portanto, duas gestantes com diabetes gestacional podem receber tratamentos diferentes.
Isso não significa que uma esteja sendo tratada “melhor” que a outra.
Significa que o tratamento foi adaptado às necessidades de cada uma.
A diabetes gestacional desaparece depois do parto?
Em muitos casos, a alteração da glicose associada à diabetes gestacional melhora após o parto.
Mas isso não significa que o assunto deve ser esquecido.
Mulheres que tiveram diabetes gestacional apresentam risco aumentado de desenvolver diabetes tipo 2 posteriormente. A própria OMS recomenda atenção ao acompanhamento após a gestação.
Por isso, o período depois do nascimento também é importante.
A mulher deve conversar com sua equipe de saúde sobre o acompanhamento necessário após o parto.
O que acontece depois do nascimento do bebê?
O acompanhamento não termina automaticamente quando o bebê nasce.
O Ministério da Saúde recomenda que a mulher continue recebendo atenção no pós-parto, e materiais técnicos brasileiros orientam a reavaliação da glicemia após a gestação em mulheres que tiveram diabetes gestacional.
Um dos exames que pode ser utilizado para essa reavaliação é o teste oral de tolerância à glicose, realizado conforme a orientação profissional e o protocolo utilizado.
O objetivo é verificar se a alteração da glicose desapareceu ou se existe diabetes ou outra alteração persistente.
Essa etapa é importante porque algumas mulheres podem continuar apresentando alterações metabólicas mesmo depois da gravidez.
Ter diabetes gestacional significa que terei diabetes tipo 2?
Não necessariamente.
Ter diabetes gestacional aumenta o risco futuro de diabetes tipo 2, mas não significa que o diagnóstico seja inevitável.
Por isso, o acompanhamento depois da gravidez é tão importante.
A OMS destaca que mulheres que tiveram diabetes gestacional apresentam risco aumentado de desenvolver diabetes tipo 2 no futuro.
Esse pode ser um momento importante para conversar com profissionais de saúde sobre alimentação, atividade física, peso, exames e outros fatores de risco.
Está grávida e recebeu esse diagnóstico?
Não enfrente a diabetes gestacional sozinha
Receber um diagnóstico durante a gravidez pode gerar muitas dúvidas, mas existe acompanhamento específico para essa situação.
Converse com a equipe responsável pelo seu pré-natal e siga as orientações recebidas.
Se precisar de uma avaliação médica, o obstetra é o profissional diretamente envolvido no acompanhamento da gestação. Dependendo da situação, o cuidado também pode envolver endocrinologista e nutricionista.
No SUS, o pré-natal começa na Atenção Primária e pode envolver encaminhamento para serviços especializados quando necessário.
Não altere sua alimentação, medicamentos ou rotina de exercícios por conta própria durante a gravidez.
Um diagnóstico não significa que você fez algo errado
Esse ponto merece ser dito de maneira clara.
Receber o diagnóstico de diabetes gestacional não significa que a mulher tenha “falhado” na alimentação ou causado a condição por ter comido determinado alimento.
A gravidez provoca mudanças importantes no organismo, e a diabetes gestacional está relacionada a alterações metabólicas que acontecem nesse período.
Por isso, transformar o diagnóstico em culpa não ajuda.
O mais importante é utilizar a informação para buscar acompanhamento e cuidar da saúde da mãe e do bebê.
O que você pode fazer para reduzir os riscos?
A diabetes gestacional não é algo que a gestante deva tentar controlar sozinha. O primeiro passo é manter o pré-natal em dia e seguir as orientações da equipe que acompanha a gravidez.
Quando existe diagnóstico, o acompanhamento pode envolver alimentação, atividade física adequada à gestação, monitoramento da glicemia e, quando necessário, medicamentos.
O objetivo não é buscar uma gravidez “perfeita”, mas manter a saúde da mãe e do bebê sob acompanhamento adequado.
Também é importante não cair em promessas de internet como “alimentos que curam diabetes gestacional” ou dietas extremamente restritivas.
Durante a gravidez, mudanças importantes na alimentação devem ser discutidas com profissionais.
Depois da gravidez, os cuidados continuam
Uma das coisas mais importantes para quem teve diabetes gestacional é entender que o acompanhamento não termina no parto.
Em muitas mulheres, a glicemia volta ao normal depois da gestação. Mesmo assim, ter apresentado diabetes gestacional aumenta o risco de desenvolver diabetes tipo 2 posteriormente.
Por isso, a mulher deve conversar com seu profissional de saúde sobre os exames necessários após o parto e sobre a frequência do acompanhamento.
Esse também pode ser um bom momento para avaliar hábitos de alimentação, atividade física e outros fatores de risco.
Diabetes gestacional pode acontecer novamente?
Pode.
Uma mulher que já teve diabetes gestacional apresenta maior risco de desenvolver a condição em uma gravidez futura.
Por isso, esse histórico deve ser informado ao profissional responsável pelo próximo pré-natal.
Ter tido diabetes gestacional anteriormente não significa que ela necessariamente terá novamente, mas é uma informação importante para o acompanhamento.
Perguntas frequentes sobre diabetes gestacional
Diabetes gestacional é perigosa?
Pode aumentar o risco de algumas complicações para a mãe e o bebê quando não é adequadamente acompanhada. Por isso, o diagnóstico e o acompanhamento durante a gestação são importantes. (who.int)
Diabetes gestacional tem sintomas?
Muitas mulheres não apresentam sintomas perceptíveis. Por isso, os exames do pré-natal são importantes para identificar alterações da glicose. (who.int)
Quem tem diabetes gestacional precisa tomar insulina?
Nem sempre. O tratamento depende dos resultados e da avaliação da equipe de saúde. Algumas mulheres conseguem controlar a glicemia com orientação alimentar e atividade física, enquanto outras podem precisar de medicamentos.
Diabetes gestacional desaparece depois do parto?
A glicemia pode voltar aos níveis esperados após a gravidez, mas a mulher continua apresentando maior risco de desenvolver diabetes tipo 2 e precisa manter o acompanhamento recomendado. (who.int)
Posso fazer uma dieta para diabetes gestacional por conta própria?
Não é recomendado. Durante a gravidez, a alimentação precisa atender tanto às necessidades da mãe quanto às do bebê. Procure orientação profissional.
Quem deve acompanhar a diabetes gestacional?
O acompanhamento faz parte do pré-natal. Dependendo da situação, podem participar profissionais como obstetra, médico de família, endocrinologista e nutricionista.
Conclusão
A diabetes gestacional é uma alteração da glicose identificada durante a gravidez e que merece acompanhamento, mesmo quando a gestante não apresenta sintomas.
Ela não é simplesmente a mesma coisa que diabetes tipo 1 ou tipo 2. A gestação provoca mudanças importantes no organismo, e algumas mulheres podem apresentar dificuldade para manter a glicose dentro dos níveis adequados.
O diagnóstico não significa que algo deu errado ou que a mãe “causou” a doença.
O mais importante é seguir o pré-natal, realizar os exames indicados e receber orientação individualizada.
E os cuidados não terminam necessariamente depois do nascimento. Como o histórico de diabetes gestacional está associado a um risco maior de diabetes tipo 2 no futuro, o acompanhamento após a gravidez também é importante.
